Cidades
Alagoas lidera amputações no Brasil por diabetes
Médico Guilherme Pitta diz que deficiência na atenção básica e outros fatores contribuem para alta nos números
Alagoas lidera, no Brasil, o número de amputações de membros inferiores como consequência da diabetes. São, em média, 50 amputações a cada grupo de 100 mil habitantes por ano. O estado lidera o ranking brasileiro de amputações feitas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) junto aos estados também nordestinos de Sergipe e Piauí.
A quantidade de amputações nesses três estados é praticamente o dobro da registrada em todo o restante do Brasil, onde ocorrem cerca de duas mil amputações ao ano, uma média de quase 200 ao mês.
Na última década, o número de amputações aumentou cerca de 20% em Alagoas. A maioria dos pacientes tem mais de 50 anos e 70% do total de amputações é feita em pacientes do sexo masculino.
Os homens, de uma forma em geral, bebem mais, fumam mais, são mais obesos e são mais descuidados com a própria saúde o que explicaria essa diferença de percentual.
Em Alagoas, os pacientes com diabetes contam com a Casa Fecha Feridas Professor Isaac Soares de Lima, referência no tratamento do pé diabético e da úlcera varicosa. A unidade é vinculada à Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal).
O objetivo da unidade, é oferecer atendimento especializado e diminuir o número de amputações por diabetes. O local foi inaugurado em abril do ano passado.
De acordo com o coordenador da Casa Fecha Feridas, médico angiologista e cirurgião vascular, Guilherme Pitta, cerca de cinco mil pacientes em Alagoas convivem com feridas provocadas pelo pé diabético – um quadro clínico grave que, se não tratado adequadamente, pode levar à morte.
O pé diabético é uma das complicações crônicas que provoca grande impacto nos custos e na qualidade de vida dos pacientes diabéticos. Estudos mostram que em países em desenvolvimento, 25% dos diabéticos desenvolverão pelo menos uma úlcera do pé durante a vida, ou seja, uma pessoa entre quatro terá problema nos pés, desencadeados pela neuropatia e complicados por Doença Arterial Periférica e Infecção, resultando em amputações.
Levantamentos da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), com base no SUS, durante e após a pandemia de Covid-19, houve um salto nos números, consequência da descontinuidade no acompanhamento de doenças crônicas.
O médico angiologista e cirurgião vascular, Guilherme Pitta, apontou as deficiências da atenção básica, as condições precárias de trabalho e a falta de capacitação dos recursos humanos como fatores complicadores para a alta quantidade de amputações entre os alagoanos com diabetes.
“Pelo menos 50% das amputações de membros inferiores poderiam ser evitadas. É preciso melhorar, investir na capacitação dos profissionais da rede básica de saúde para diagnosticar, de forma precoce, as feridas com alto potencial de evoluir para uma amputação”.
O prognóstico para quem amputa os membros inferiores em decorrência da diabetes não é dos melhores. Conforme o médico angiologista e cirurgião vascular Guilherme Pitta, em um período de dois anos depois da amputação, 50% dos pacientes evoluem a óbito. Vinte por cento, amputam o segundo membro.
A SBACV alertou para o alto risco após a cirurgia. Cerca de 10% dos pacientes morrem no período perioperatório, 30% no primeiro ano, chegando a 50% no terceiro ano após a amputação.
Casa Fecha Feridas traz esperança para os pacientes
A dona de casa Jamylle Passos da Silva, 37 anos, mãe de três filhas de 22, 18 e 17 anos trava, há 10 anos, uma luta contra a diabetes. Natural de Cajueiro, ela frequenta a casa há alguns meses, uma vez por semana, na esperança – que se renova a cada consulta – de não amputar o pé.
“Levei uma pancada e meu pé não estava sarando. Cada vez mais, a situação piorava. Estava horrível, uma verdadeira ferida aberta. Somente aqui com o tratamento adequado, antibiótico, curativos frequentes, posso voltar a ter a certeza de que meu pé será tratado e ficarei bem, com a doença sob controle”.
Mestre da Cultura Popular e Patrimônio Vivo de Alagoas, Geraldo José da Silva, 71 anos, contou que trava uma batalha com a diabetes há 32 anos. “Naquela época, o médico disse que eu tinha apernas mais 20 anos de vida. Até hoje, sigo tentando derrubar a doença para ela não me derrubar”.
Há 46 anos comandando o Grupo de Folguedos Axé Zumbi –importante expressão da cultura popular e afro-alagoana. O coletivo preserva tradições ancestrais por meio de expressões como o Toré de Índio, a capoeira e diversas danças folclóricas típicas da região – o mestre tem consultas regulares na Casa Fecha Feridas para tratar o pé comprometido pela doença depois que descascou uma cicatriz bem pequena, segundo ele.
“Sem sarar e ficando cada vez pior, estava com cerca de cinco centímetros já. Até que vim procurar atendimento aqui. O processo de cicatrização é longo, mas está acontecendo”, contou esperançoso ao lado da esposa e do seu único neto. Mestre Geraldo José da Silva tem dois filhos e carrega a esperança de continuar preservando a cultura na capital por muitos anos ainda.

A Casa Fecha Feridas Professor Isaac Soares de Lima realiza cerca de 500 atendimentos ao mês. O local funciona de segunda a sexta, à tarde. Antes funcionava os dois horários. A Casa contava com sete funcionários. Atualmente, está com três. As mudanças foram uma adequação necessária ao corte de verbas sofrido pela Uncisal.
Os municípios alagoanos de Rio Largo e Marechal Deodoro, ambos na região metropolitana de Maceió, e o município de Olho d’Água das Flores são os que mais enviam pacientes à Casa Fecha Feridas.
A Casa representa um avanço significativo no cuidado à saúde em Alagoas, alinhado aos pilares da universidade: ensino, pesquisa, extensão e assistência.
“O pé diabético é o momento de maior gravidade para o paciente diabético porque tem o risco de descompensação e morte. Muitas vezes nas unidades básicas não há atendimento adequado. Quando o paciente não pode ser tratado na unidade primária ele precisa ser transferido para a unidade secundária em 12 horas”, destacou Guilherme Pitta.
De acordo com ele, essa experiência é reforçada pela Lei Municipal que criou o Programa de Atendimento ao Pé Diabético (Pape). O objetivo é prevenir, diagnosticar e tratar o pé diabético, garantindo reabilitação e qualidade de vida aos pacientes.
A nova lei determina que as Unidades Básicas de Saúde (UBS) estejam preparadas para identificar os primeiros sinais de complicações, enquanto as Unidades de Referência à Saúde (URS) devem estar capacitadas para manejar casos mais graves e encaminhar rapidamente os pacientes a leitos hospitalares, buscando, assim, reduzir as taxas de amputação. A Lei é de autoria do vereador Leonardo Dias (PL).
O nome da Casa Fecha Feridas é uma homenagem ao professor Isaac Soares de Lima, falecido em 2024, conhecido como um mestre na Medicina verdadeira, na técnica cirúrgica e uma referência ao respeito com o paciente e com a ética.
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